Blind Blake

Blind Blake, que era tão cego quanto Homero, Tirésias, Jorge Luís Borges ou Lucílio Baptista (estou a exagerar, ninguém é assim tão cego), tem a particularidade de ter sido, na minha modesta opinião (uma das únicas verdadeiras), um dos maiores guitarristas de sempre e foi ele que, basicamente, inventou o estilo de Piedmont. Para quem não sabe que estilo é este, uma pequena explicação: está a ver aquele polegar que tem (esperemos) nas suas mãos? Muito bem, com esse acrescento conseguimos pedir boleia e destruir o Planeta, mas mais importante do que isso, por incrível que pareça, é uma coisa chamada síncope. Mas não desmaie, esta síncope -- que se consegue através do polegar -- é apenas rítmica (no nosso caso), artística (no caso de Blind Blake). O Piedmont Style é o correspondente na guitarra ao ragtime do piano. Compreendeu? Se sim, envie-me um email a explicar.
Não há nada neste mundo que não tenha sido antes imaginado, disse Blake. Poderia ter sido Blind Blake, mas foi William Blake. O que acontece, só para contrariar o poeta, é que nunca nenhum ser humano imaginou que o polegar poderia ser usado da forma como Blind Blake o fez. Se é que aquilo era verdadeiramente um polegar.
Como quase todos os bluesmen, ninguém sabe ao certo o seu verdadeiro nome, onde nasceu ou como morreu. Sabe-se, todavia, que Blind Blake foi a primeira pessoa do mundo a confessar não saber o que “diddie wa diddie” significa. Até fez uma música sobre isso, onde, de forma tão pertinente, manifesta um desejo comum a tanta gente: I wish somebody would tell me what Diddie Wa Diddie means.

+

Momento Crítico #14

«Os Soaked Lamb são portugueses e bons rapazes. Um orgulho.
A Mariana Lima tem uma voz deliciosa que, não deixando de me recordar a Madeleine Peyroux (e isto só para ser contemporâneo), traz consigo os sonhos de um Jazz cosmopolita, repleto de influências negras, latinas e de muitas outras paragens, naquela atitude de que a música não vive tanto da sua origem, mas muito mais dos sítios para onde nos leva. Estes senhores, na minha modesta e sempre discutível opinião, são uma bênção! O facto de me fazerem também recordar um Django Reinhardt não faz com que os admire menos – não – antes pelo contrário!»
(Xukebox)
+

Próximos:

Dia 3 de Julho tocamos em Odemira, no Jardim da Fonte Férrea, às 21.30h. E no dia seguinte, às 23h, na Fábrica do Braço de Prata, em Lisboa.

Braço07-09_1
+

Son House

Uma das coisas mais curiosas que apareceram no século XX, depois da internet, foi Son House (Eddie James House, Jr.). Foi um dos primeiros bluesman a bater na guitarra e a conseguir com que isso soasse bem. Não era um virtuoso, graças a Deus, mas tinha uma voz que lhe vinha do período câmbrico médio (altura em que praticamente só existiam seres vivos minerais), passava pelo paleolítico superior e desaguava num microfone. Dificilmente se voltará a ouvir algo assim, por mais que tentemos evitá-lo.
Certa vez matou um homem (evidentemente em legítima defesa) e isso permitiu-lhe passar uns anos numa prisão daquelas -- como dizer sem ofender? -- de segurança máxima.
Penteava-se com rigor geométrico, em ondinhas capilares e, por vezes, usava um laço. Ninguém sabe muito bem quando nasceu, nem a mãe. Se é que teve mãe.
Para a História ficam músicas que ninguém ouve, mas que tiveram uma importância fundamental para tudo aquilo que ouvimos hoje.

+

Quase acústico

O som está muito baixinho, o que pode ser uma bênção. Mas dá para ver qualquer coisa.
+

Concerto na loja Geraldine, Sábado 30 de Maio, às 18h (3 euros)

Este é um concerto dos The Soaked Lamb para quem gosta de móveis.
Estaremos por trás daquele aparador, entre o sofá e a mesinha de cabeceira, a tocar qualquer coisa entre os blues e o jazz. Não convém nada perder este concerto: a iluminação dos abajours vintage favorece os nossos melhores ângulos. Petiscos serão servidos e, possivelmente, serão a única coisa deste século que se poderá consumir na loja. Finja que nos vai ouvir e empanturre-se de croquetes.
+

Próximo:

Geraldine_30MAI2009
+

Concerto do Maxime (uma resenha)

Primeiro, como podem ler no título, usei a palavra resenha. Não volta a acontecer.
Segundo, o concerto propriamente dito: teve mais de vinte pessoas em palco, tal como prometido. Infelizmente não se cumpriu o meu prognóstico -- de final de jogo -- que garantia haver mais pessoas em palco do que na assistência. Estava cheio, o velho cabaret, abarrotava. E assim calaram-se as vozes perversas que diziam que, nos nossos concertos, a única assistência que teríamos seria médica (claro que apenas para as duas pessoas da banda que têm seguro de saúde).
Terceiro, voltemos ao concerto: dei umas notas erradas, confesso, mas em tempo de crise (inventada pelos media e pelo Rui Santos), as pessoas não desperdiçam oportunidades. Vi, apesar das luzes ofuscantes da ribalta, uma pessoa da plateia a enfiar essas notas no bolso. Uma pessoa pode ficar rica só de me ouvir tocar.
Quarto, convém salientar a disponibilidade da loja Geraldine que emprestou uns móveis para que a nossa aparência não fosse tão enfadonha. O mundo ficou ciente de que um sofá não faz milagres. Não é por acaso que não existe religião nenhuma à volta desse objecto.
Há que agradecer ao coro Musicarte. Sem eles não teríamos mais de vinte pessoas em palco e o universo, tal como a ciência o conhece, não seria o mesmo.
Sei que as pessoas gostaram muito, apesar das opiniões em contrário. E, resumindo, acho que foi o nosso melhor concerto.
Muito obrigado a todos os que foram. Aos que não foram, resta-lhes o gosto amargo de não terem gasto os dez euros do bilhete.
+

Próximo:

maxime_9MAI09
+

Entrevista Cotonete

Os portugueses The Soaked Lamb preparam-se para lançar o segundo disco de originais no próximo Outono.
A revelação foi feita pelo compositor e multi-instrumentista Afonso Cruz, em entrevista ao Cotonete.
O sucessor de "Homemade Blues", editado em 2007, deverá sair «em Outubro ou Novembro» e «será um disco menos homemade e com um espectro musical mais alargado».
O músico garante que os Soaked Lamb estão a gravar o segundo disco «com a mesma calma» com que gravaram o primeiro. «Nós não temos tempo para ter pressa, fazemos as músicas como eram feitas há 60 ou 70 anos, com o cuidado de quem faz uma melodia para durar e não um ritmo para trepar os tops», explica. E acrescenta: «compomos com uma lentidão que não é nada moderna».
Apesar de reconhecer que «muito do espírito dos Soaked Lamb é inspirado na música americana da primeira metade do século XX», Afonso Cruz sublinha: «evidentemente não somos imunes ao que se passa à nossa volta, à contemporaneidade, mas preferimos tocar sentados».
Segundo o músico, a banda não pensa muito em fronteiras: «as raízes americanas interessam-nos porque, essencialmente, não têm fronteiras». «Cada vez mais, e isso é um traço de modernidade, o mundo é partilhado entre todos: há bandas japonesas a tocar rockabilly e bandas ganesas a tocar bossa nova. Quando palestinianos tocarem klezmer e israelitas música sufi, poderemos ter esperança», diz.
A música dos Soaked Lamb já entrou num anúncio do molho de tomate Guloso e integrou a banda sonora do filme "Arte de Roubar", ao lado de nomes como os Dead Combo e The Legendary Tiger Man. E genericamente, o disco de estreia «tem sido muito bem recebido, as críticas foram sempre bastante boas», no entanto, Afonso acredita que a participação no anúncio publicitário não lhes trouxe «uma notoriedade especial».
Os Soaked Lamb tocam esta sexta-feira no Centro de Artes do Espectáculo de Portalegre e, no sábado, na Galeria do Desassossego, em Beja. Ambos os espectáculos começam às 11 da noite. Afonso Cruz descreveu-nos um concerto típico da banda: «os concertos passam-se sentados, o público e nós. Tocamos a cores, mas soa a preto e branco. Todos usamos chapéu, mas já houve um elemento que tocou, contra todas as regras, de sandálias».
Pode consultar a agenda de concertos no MySpace na banda, onde pode também ver o vídeo do anúncio e de algumas prestações ao vivo.
HG c/ MMB


Uma entrevista muito bem entrevistada, muito bem contextualizada: aqui.
Obrigado à Cotonete, um bálsamo para os ouvidos. Mesmo para os mais duros.
+

Espectacular digressão pelo País real

dig
Estive a tocar, nos dois últimos fins-de-semana, em Coimbra, Leiria, Beja e Portalegre. Gostei muito, essencialmente daquele senhor que dizia para tocarmos aquela. Também havia, em Leiria, uma groupie com a camisa aberta e o peito ao léu. Estou a brincar, era um homem.
A banda deu várias entrevistas, todas muito bem dadas, repletas de bom senso e criteriosa auto-análise. Aliás, se não fosse a banda a responder desse modo tão pertinaz, os músicos que a compõem ter-se-iam limitado a respostas medíocres, como vem sendo hábito. Emocionei-me quando um entrevistador se sentiu comovido com uma letra minha, "A Coffin for Two". Contive as lágrimas, mas deixei que os violinos continuassem a soar. Quando o segundo violino se enganou escandalosamente, tocando um arpejo em Mi diminuto sobre um Ré maior, é que percebi que era tudo produto da minha cabeça. E depois, com os olhos ainda marejados, olhei para o Gito (o contrabaixista) e notei que, também ele, tinha um nó na garganta. Era a gravata.
Em Portalegre, o palco fica muito próximo da casa de banho o que é bom para o pianista, que é o que tem mais urgência de urinol. Eu também costumo ir todas as semanas.
Em Coimbra tocámos num salão de carisma onde o meu pai, quando eu ainda não era nascido (que saudades que eu tenho desses tempos), jogava bilhar: o Salão Brazil. A cerveja, que tem aquela tendência mórbida de se deixar morrer mal se vê fechada dentro dum copo, esteve sempre fresca. A mesa de snooker precisava duma pequena afinação. Enfim, não foi a única coisa desafinada nessa noite. Lembro-me, com algum carinho, dum Si bemol que deixei escapar sem querer. Felizmente não cheira. De resto, toquei sempre evitando citar Merleau-Ponty no banjo, mas não pude conter um ou outro som menos positivista. Assim, convém notar duas coisas: A primeira é que, do nosso lado, pudemos corroborar o facto de não existir separação entre sujeito e objecto, exactamente como enuncia a fenomenologia mais ortodoxa, mesmo quando está sóbria. A segunda é que do lado do público ninguém se despiu, por isso seria pretensão nossa qualquer alusão à união sujeito/objecto (gravemente reprovada pela Igreja).
Em Beja alguém gritou encore mas nós, infelizmente, não temos músicas francesas no repertório.
Fizemos bastantes quilómetros e foi um pouco cansativo. Comprovámos, nestas viagens, que Lisboa fica demasiado longe de Portugal. E que em Leiria há um homem que rapa os pêlos do peito.
+

Próximos: Coimbra, Leiria, Portalegre e Beja

Abril2009
+

5 linhas, 4 espaços

> Entrevista com a banda

O 5 Linhas, 4 espaços é uma rubrica do programa E2, da Escola Superior de Comunicação Social. Surge do amor à música de um grupo de amigas e colegas, e com muito trabalho da nossa equipa técnica, chega aos vossos ecrãs quinzenalmente nas madrugadas de quinta para sexta, à 1h, na :2. Tem como objectivo mostrar bandas desconhecidas à maioria do público, umas com mais experiência que outras mas com algo em comum: o amor à música.
+