Em Agosto, na revista Blitz, podia ler-se um artigo titulado "15 Promessas da Música Portuguesa que Estão a Dar que Falar". Uma dessas 15 promessas eram os The Soaked Lamb.
No jornal I de 24 de Setembro de 2009, António Pires (num artigo sobre os Nobody's Bizness) escreveu que The Soaked Lamb são um grupo que "parte da nascente dos blues e depois os leva para o céu".
«Desta receita, por sua vez, escorre uma pitada de contrabaixo, um saxofone, um pedal steel guitar, um belíssimo piano e uma quente e inebriante voz feminina, e bem feminina!
Do alto de um gramofone ao fundo da sala, ambiente vintage a preto e branco desenha-se o mundo de The soaked Lamb.
A matriz musical encontra-se entre o blues e o jazz dos anos 30 e 40, respectivamente, ou seja, uma delícia sonora.»
Screaming Jay Hawkins era um daqueles pugilistas que queria cantar ópera. O mundo do boxe está cheio de casos destes. Não é raro entrar num ginásio (para nos inscrevermos, não para nos entregarmos a exercícios físicos), chamar boxeur a alguém (no bom sentido) e ouvir: Sou um cantor de ópera, isto é provisório. Quantas vezes se ouve, nos ringues, entre dois assaltos, desabafos sentidos: "eu devia era ser cantor lírico". E que prazer dá vê-los retomar o combate com mais falsete no uppercut e um pequeno Puccini no jogo de pernas. Voltemos a Screaming Jay Hawkins. Com o insucesso desta incursão pelo mundo da ópera, virou-se para o vudu e para os lamentos em pentâmetros jâmbicos e os doze (ou oito, sejamos complacentes com os números) compassos, ou seja, os blues. Fez muito bem. Isso e filhos. Fez cerca de setenta e cinco filhos a várias mulheres. Há rumores que afirmam ser um número menor, que Screaming Jay Hawkins não teve mais de cinquenta e poucos rebentos. São pessoas que querem descredibilizar os blues. É por isso que ninguém vai aos estádios. Voltemos a Screaming Jay Hawkins. Era um homem que gostava de se apresentar vestido de leopardo, com ossos a atravessarem-lhe o nariz. Ficou muito conhecido com “I Put a Spell on You” e com aquela música cujo tema é a prisão de ventre e o trânsito intestinal, chamada Constipation Blues (actuava com uma retrete no palco. Não estou a brincar). E também tinha esta particularidade a ter em conta: fazia, com as suas imensas cordas vocais, um ruído bizarro – perdoe-me o estrangeirismo, mas não encontro o portuguesismo necessário –, que era como um porco na matança, mas na nota certa. Como não existem lendas vivas dos blues que não tenham morrido já, Screaming Jay Hawkins deu-se por falecido no ano 2000. Cerca de setenta anos depois de ter nascido.
Howlin' Wolf, cujo verdadeiro nome era Chester Burnett, tinha quase dois metros, pesava perto de dezasseis toneladas – para ser preciso, cerca de 140 quilos em jejum – e, disse alguém, tinha voz de maquinaria pesada. Com aquela voz era perfeitamente possível lavrar os inúmeros hectares do meu terreno (três, para ser exacto) em menos de uma manhã. Já pensei em virar para lá a aparelhagem, para ver o que acontece, mas tenho medo de derrubar as oliveiras. Howlin' Wolf nasceu em White Station, Mississippi, e aprendeu a tocar harmónica com Sonny Boy Williamson II (não vou falar deste bluesman para não me emocionar demais). A mãe deserdou-o por um motivo tão banal no mundo dos blues que me custa escrevê-lo: por tocar a música do Diabo. E assim, aos treze anos, Chester Burnett viu-se obrigado a fugir de casa. Esta história poderia ter resultado na criação de um país na cauda da Europa mas, felizmente, acabou bem, com discos gravados e tudo. Howlin' Wolf tinha preferência por fatos pretos que ficavam lindamente com a gravidade da voz. Este pequeno maneirismo do seu carácter devia-se a, um dia, ter visto uma imagem de Blind Lemon Jefferson assim vestido. O fato era preto porque, nessa altura, as fotografias reproduziam fielmente o mundo a preto e branco daquelas pessoas. Dizem que Howlin' Wolf morreu – como se eu não o tivesse visto o mês passado na paragem do 28 para Moscavide – em 1976. Foi Howlin' Wolf que, juntamente com Blind Willie Johnson, inventou a voz do Tom Waits. Nunca vi ninguém dar-lhe o crédito por isso.
No video acima, o leitor atento terá reparado que o contrabaixista se semelha, com exactidão metafísica, a Willie Dixon. O motivo de tal prodígio é que é mesmo Willie Dixon (haveremos, num futuro próximo, de falar deste boxeur). Por agora, ouça Blind Willie Johnson:
Blind Blake, que era tão cego quanto Homero, Tirésias, Jorge Luís Borges ou Lucílio Baptista (estou a exagerar, ninguém é assim tão cego), tem a particularidade de ter sido, na minha modesta opinião (uma das únicas verdadeiras), um dos maiores guitarristas de sempre e foi ele que, basicamente, inventou o estilo de Piedmont. Para quem não sabe que estilo é este, uma pequena explicação: está a ver aquele polegar que tem (esperemos) nas suas mãos? Muito bem, com esse acrescento conseguimos pedir boleia e destruir o Planeta, mas mais importante do que isso, por incrível que pareça, é uma coisa chamada síncope. Mas não desmaie, esta síncope -- que se consegue através do polegar -- é apenas rítmica (no nosso caso), artística (no caso de Blind Blake). O Piedmont Style é o correspondente na guitarra ao ragtime do piano. Compreendeu? Se sim, envie-me um email a explicar. Não há nada neste mundo que não tenha sido antes imaginado, disse Blake. Poderia ter sido Blind Blake, mas foi William Blake. O que acontece, só para contrariar o poeta, é que nunca nenhum ser humano imaginou que o polegar poderia ser usado da forma como Blind Blake o fez. Se é que aquilo era verdadeiramente um polegar. Como quase todos os bluesmen, ninguém sabe ao certo o seu verdadeiro nome, onde nasceu ou como morreu. Sabe-se, todavia, que Blind Blake foi a primeira pessoa do mundo a confessar não saber o que “diddie wa diddie” significa. Até fez uma música sobre isso, onde, de forma tão pertinente, manifesta um desejo comum a tanta gente: I wish somebody would tell me what Diddie Wa Diddie means.
«Os Soaked Lamb são portugueses e bons rapazes. Um orgulho. A Mariana Lima tem uma voz deliciosa que, não deixando de me recordar a Madeleine Peyroux (e isto só para ser contemporâneo), traz consigo os sonhos de um Jazz cosmopolita, repleto de influências negras, latinas e de muitas outras paragens, naquela atitude de que a música não vive tanto da sua origem, mas muito mais dos sítios para onde nos leva. Estes senhores, na minha modesta e sempre discutível opinião, são uma bênção! O facto de me fazerem também recordar um Django Reinhardt não faz com que os admire menos – não – antes pelo contrário!» (Xukebox)
Uma das coisas mais curiosas que apareceram no século XX, depois da internet, foi Son House (Eddie James House, Jr.). Foi um dos primeiros bluesman a bater na guitarra e a conseguir com que isso soasse bem. Não era um virtuoso, graças a Deus, mas tinha uma voz que lhe vinha do período câmbrico médio (altura em que praticamente só existiam seres vivos minerais), passava pelo paleolítico superior e desaguava num microfone. Dificilmente se voltará a ouvir algo assim, por mais que tentemos evitá-lo. Certa vez matou um homem (evidentemente em legítima defesa) e isso permitiu-lhe passar uns anos numa prisão daquelas -- como dizer sem ofender? -- de segurança máxima. Penteava-se com rigor geométrico, em ondinhas capilares e, por vezes, usava um laço. Ninguém sabe muito bem quando nasceu, nem a mãe. Se é que teve mãe. Para a História ficam músicas que ninguém ouve, mas que tiveram uma importância fundamental para tudo aquilo que ouvimos hoje.